Eu passei dos limites de mim na busca incessante por minha realização pessoal. Não queria ser apenas um piloto de fogão, uma máquina do sexo ou uma geradora de filhos. Meus sentimentos agiram por mim, embora tendo que desobedecer e fazer sofrer aqueles a quem mais amava.
Não me tornei uma feminista, pois sabia que o amor sempre fez parte da conquista pessoal de uma mulher, também porque queria me doar para alguém recebendo dele total cumplicidade e brotar filhos de um amor verdadeiro, não de uma relação conjugal por aparência. Prostituta naquelas condições, melhor não se tornar porque sofriam do mesmo mal que as senhorinhas recatadas. Por serem amantes de senhores machistas, dominadores e preconceituosos, eram escomungadas da sociedade, sem permissão para frequêntar os mesmos ambientes que as senhoras chinfronésias de Horizonte Novo. Não viviam de luxo, nem de grandes ostentações, pois recebiam misérias pelo serviço. Por nunca me aproximar do salão onde aconteciam as orgias sexuais, tinhamos pouco contato, já que eu passava o dia costurando no ateliê de D. Dirse.
Meus pais por causa da pressão, do falatório dos desocupados, deram um jeito de desaparecer da região. Foi o momento mais difícil de minha vida. minha mãe era meu sustentáculo, sem a presença dela eu me senti vazia, fraca, sem propósitos para ir além daquilo que eu tanto almejava. Na situação de senhora de mim mesma, comecei a dar por falta de suas preocupações, de seu extremo amor de mãe, enfim de seus cuidados preciosos. A saudade foi me consumindo aos poucos, me tornando íngreme como uma pedra. Fui ao fundo do poço e voltei, era como se minha mãe estivesse morta, algo me dizia que ela estava morta. Meses depois, um cliente do bordel de madame Margarett, me trouxe a certeza de seu falecimento, meu pai a tinha matado. Não chorei mais, cultivei comigo essa tristeza profunda e para sempre. Deus me deu o conforto como dá para todos os filhos que perdem as mães.
Segui meu caminho ainda mais revoltada com a situação de ser mulher numa sociedade tão cruel e injusta, onde homens impõem, estupram, corrompem a moral e até matam suas vítimas indefesas. Meu pai, graças a Deus, nunca mais o vi, guardo por ele o pior dos sentimentos humanos.




















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