Muitos anos se passaram. Meu adorável irmão por ter se envolvido em negócios escusos como sempre, acabou sendo deposto do alto cargo político que exercia na assembléia constituinte, tendo como substituto na carreira o rebento Peter que lhe saíra igual em tudo, até com a mesma disposição sexual. Político, corrupto, com todos os atributos de nobreza e malidiscência. Esse porém, foi também responsável pela briga que tive com meu irmão, o colocando na justiça para adquirir o que era meu por direito, pois Peter não aceitava que a tia velha tivesse poder sobre a herança que julgava única e exclusiva do pai.
Saí daquela casa com as mãos abanando como uma qualquer, sem direitos trabalhísticos reconhecidos, sem amor de família e se eu não tivesse minhas economias, talvez tivesse ido parar num abrigo de velhinhos, Lar,doce lar. Mas Deus é justo e eu ganhei a causa na justiça, provei para eles com quantos paus se faz uma canoa. Metade da bufunfa doei para Lar, doce lar, a outra metade guardei para as despesas finais de minha vida. Ainda tenho algum tempo para ver em minha velha bola de cristal o que o destino ou a sorte, sei lá, reserva para Peter, o demolidor de corações e vidas também, tão ruim feito a peste do avõ.
Está escrito no destino do menino rico, que usa e abusa do que é do povo por direito, sem se comover um só momento com a miséria estampada no olhar de nossa gente sofrida, que terá pouco tempo de vida, sua própria frieza o destruirá. Menino que nasceu para satisfazer ambições, sempre tratado como rei, pisando em todo mundo, incapaz de amar e ajudar o próximo, vilão de si mesmo, pobre menino rico morrerá enfiado na ponta da peixeira de um humilde agricultor, a quem tanto mal fará, tirará a vida de seu filho por brincadeira, só porque o rapaz desobedecerá suas ordens. Nobre homem do campo, fará justiça com as próprias mãos e se tornará senhor e herói de seu povo. Alcançará a honra e conquistará o orgulho de toda sociedade brasileira. È o destino, ninguém muda o destino.
Estou um pouco tonta, pernas bambas, não consigo mais andar, nem soltar a voz. De repente tudo ficou escuro. Ouço passos não- humanos, mãos que me carregam pelo vazio de meu mundo que não mais existe. Sem forças para resistir, me deixo levar, enquanto navego em mim mesma e deixo tudo para trás, o que foi bom e o que foi ruim. Estou nos braços da morte e ela tem a cara de Maria- homem, minha amada mãezinha. Um túnel de luz se abre em nossa frente, sei que poderia lutar para não partir, mas a sensação que tenho è de pura liberdade. Eu preciso ir, preciso desvendar os mistérios que em vida nunca tive oportunidade, pois a ambição dos homens é maior que a paz de espiríto que cada um precisa ter. Adeus, quem sabe um dia em outra vida a gente se encontre.
Fim
Manoel Dérson
07 de outubro de 2007




















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