MARIA PAPA TUDO
Ninguém conseguiria deter os desejos pecaminosos de Maria, a morena era fogo na coivara, chama acesa, pronta para incendiar. Quando ela resolveu aterrissar naquele fim de mundo, é porque tinha um propósito, afinal ningúem deixa a civilização atoa, Maria fogueteira queria ir além da imaginação, deitar e rolar com os capiaus daquele agreste de nada, tirar a paz das mulheres insosas que viviam apenas para um homem e em função dele, sem se importar com as traições, as humilhações e com seus machismos exarcebados. Em vez de revoltada pela ameaça das amélias de araque, ficou feliz por elas terem tomado atitude, já que seu propósito dependia da união daquelas matutas. Por isso quando soube que o delegado havia prendido todas elas, ordenou que as soltassem o mais rápido possível, juntando-se as mesmas na santa sacristia, enquanto jurou para as beatas de pé junto, que a partir daquele momento, não mais se divertiria com o marido de nenhuma delas. Certas de que Maria era mulher de pulso firme, resolveram dar credibilidade à moça, como se dissesssem: - Eu confio no seu taco e no seu fogo também, Maria papa tudo! Só que a mulher de Mardônio, insatisfeita com a situação, resolveu ficar de fora do acordo, afinal tinha sido traída e chifre é como caxumba, precisa de um tempo para sarar. Na verdade, Maria e ela nunca foram lá grandes amigas. Durante a infância viviam a brigar feito cão e gato, sendo que na adolescência a coisa só piorou, porque todos os namoradinhos que Salete arrumava, Maria dava sempre um jeito de tomar. Maria foi um fardo pesado que Salete teve que carregar até os quinze anos, já que eram da mesma idade, mas Maria por sua vez, pretendia conquistar a amizade de Salete. Para isso teve que sossegar o facho e se contentar com apenas um homem, para dar a impressão de que estava realmente tentando mudar sua concepção de que homem é que nem roupa, quanto mais se troca, mais se tem a sensação de limpeza. O escolhido foi aquele a quem me referi nos primórdios dessa narrativa, o mesmo que lhe sorriu na chegada, Pedro Francisco, ex-garimpeiro e prefeito da cidade naquela época, de como tinha subido na vida e dado a volta por cima, um dia, quem sabe contarei. Maria era diferente da irmã que botava cornos no marido nobre com um zé ninguém, para ela ao assumirmos um compromisso com alguém, temos de nos manter firmes, agora se pecebermos que o relacionamento não está dando certo, é melhor cair fora, do que trair a pessoa, isso é jogo sujo, mas para ela, Clotilde agia assim porque realmente as mulheres de sua familia não prestavam, nasceram para ser putas, estava escrito no destino, quando o único irmão homem, o João Mário, que cuidava de suas finanças em São Paulo, era o pior mulherengo da zona paulistana.
Sua mãe não tinha sido como elas, aos treze anos já estava casada com vosso pai, sendo mulher de um homem só, aos dezoito morrera de parto. Já de seu Arteiro, não se podia falar o mesmo, pois ainda com Dona Iracema vivinha da silva, o capiau tinha se envolvido com Raimunda da gamboa, fazendo-lhe uns vinte filhos, sorte que não escapou nem dez, pois Raimunda, mulher labrocheira, era boa para homem, não para criar filhos, tanto que os poucos que restou, fez questão de doá-los, a peste. Para Maria, a tendência à prostitutas, elas tinham herdado do pai, se é que isso é possível. Voltando a mencionar Pedro Francisco, esse passou a freqüentar a mansão de Maria Homem, Já com a pretensão de casar e garantir direitos na rica herança da moça, mas como para a mulher tudo não passava de uma farsa, descartou de vez tal possibilidade juntando-se com ele de mala e cuia, enquanto passou a brincar de primeira dama, cargo que de tão enfadonho chegava a causar naúseas, por não ter muito o que fazer. Foi nesse período que sua imagem de santa caridosa se espalhou aos quatro cantos de Dunas.
Quem imaginava um dia ver Maria homem transformada em esposa fiel, honrando um compromisso para abastecer o desejo da sociedade, mas foi justamente o que ela passou a fazer depois que assumiu um pacto conjugal com Pedro Francisco.
Até Salete porém, se rendeu ao poço de virtudes de Maria Bonita, que também havia sido Maria Papa Tudo. Na verdade, Salete encheu o rabo de orgulho ao ser convocada para o cargo de secretária de educação pela própria primeira dama e ex dama do meretrício. Enaltecida a cunhã passou a esquecer até dos cornos que Maria lhe botara, meses atrás.
Como primeira dama do paço imperial de Dunas, senhora exemplar, que so vivia para seu homem, uma perfeita imitação barata de Getúlio Vargas, Maria passa a relembrar os bons tempos em que havia sido esposa fiel de outro lorde, o rico fazendeiro de Minas Gerais. Era verdade que em Dunas não havia teatro, nem cinema, como havia em São Paulo. Não havia cassino como em Las Vegas, mas podia passear com ele de mãos dadas pela praça principal da cidadezinha pitoresca, observar o mar e sorrir para a multidão de eleitores por quem eram sempre interrompidos. Eleitores que satisfaziam-se em pegar apenas nas mãos do casal, como verdadeiros súditos, já que Pedro, seguindo os passos de Getúlio dominava-os com sua política populista.
Todos passaram a perceber a mudança do prefeito após o compromisso com a ricaça, antes revoltado e extremamente machista, ao lado dela, tornou-se dócil, um verdadeiro gentleman. Diziam as más línguas que Maria talvez tivesse passado o rabo na cara do sujeito, o que fez muitas mulheres de Dunas mudarem o comportamento em relação aos maridos e aos amantes, mas não era nada do que imaginavam. O motivo de toda a elegância devia-se ao fato de que Maria Bonita, que havia sulgado riqueza e cultura do fazendeiro nobre, passava-lhe aos poucos centésimos fracionados de conhecimentos.
Só que explicitamente, era a intenção de Maria mudar o comportamento das mulheres de Dunas em relação aos homens, pois bastante submissas, não tinham direito a quase nada, a não ser, passar, lavar, ir a missa e cuidar dos filhos, enquanto os poderosos machistas se divertiam com jogos, bebidas e marafonas.
Iniciava-se então a revolta feminista contra o machismo predominante.




















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